A Ubisoft descobriu por acidente que o produto de Far Cry não é o herói. É o vilão.
O acidente tem nome: Michael Mando. Ele fez a audição para um personagem menor do Far Cry 3, o roteiro foi reescrito em volta dele, e a franquia nunca mais foi a mesma.
Desde então a série virou um desfile de psicopatas carismáticos, cada um respondendo ao anterior, enquanto um caipira de bandana e um agente da CIA de moral flexível atravessam todos os jogos sem morrer. Este é o guia deles.
Aviso: tem spoiler de Far Cry 3, 4, Primal, 5, New Dawn, 6 e dos três DLCs de vilão. Mas garanto que vale a pena. Artigo completo.
Vaas Montenegro: o acidente que virou a capa
Rook Islands, 2012. Jason Brody é um mauricinho de férias que vê o irmão levar um tiro no pescoço e passa o resto do jogo virando uma máquina de matar com tatuagem tribal.

Mas ninguém lembra do Jason. Todo mundo lembra do pirata de moicano perguntando se você sabe a definição de insanidade.
E aqui está o detalhe que muda como você enxerga a franquia inteira: Vaas não estava no plano original. O vilão principal era Hoyt Volker, o traficante de escravos. Vaas era um capanga. Aí Michael Mando fez a audição, o roteirista Jeffrey Yohalem viu o que tinha nas mãos, e reescreveu o jogo em volta dele.
O resultado é um personagem que some no meio da história, porque foi encaixado tarde demais para durar até o fim. E mesmo assim virou a capa.
Vaas é o Darth Vader que aparece por vinte minutos e rouba o filme. A Ubisoft admitiu depois que ele sair cedo foi oportunidade perdida, e passou os três jogos seguintes tentando consertar isso.
O espelho
O jogo insiste que Jason e Vaas são a mesma pessoa em caminhos diferentes. Um virou viciado em droga, o outro em adrenalina. Nas alucinações, os dois trocam de lugar.
E o final entrega: se você escolher ficar com Citra, a irmã do Vaas, ela faz sexo com você, te apunhala e sussurra “você venceu”. Porque você virou o que ela queria: outro Vaas.
Enquanto isso, num barco chamado Big Sally
É aqui que a gente conhece Hurk Drubman Jr., um americano com sotaque do sul, obsessão por macacos e nenhuma noção de perigo.

Ele aparece no DLC do Far Cry 3, mora num barco, e você provavelmente esqueceu dele. Não esqueça. Ele vai atravessar mais jogos que qualquer vilão.
E na mesma ilha está Willis Huntley, agente da CIA que te dá informação sobre o Hoyt, te ajuda por interesse próprio, e antes de sair diz que vai se juntar a uma Task Force 141. Sim, a do Call of Duty. A Ubisoft tem senso de humor.
Pagan Min: o vilão que te convida para jantar
Kyrat, 2014. Ajay Ghale volta ao país onde nasceu para espalhar as cinzas da mãe num lugar chamado Lakshmana. O ônibus é parado, tem tiroteio, e um homem de terno rosa chega, mata um soldado com uma caneta e te chama para jantar.

Pagan Min foi escrito como resposta direta ao Vaas. O diretor criativo Alex Hutchinson achou que Vaas sumiu cedo demais, então Pagan tem tela do começo ao fim. E onde Vaas era cru, Pagan é elegante, sarcástico e, na maior parte do tempo, sincero.
Troy Baker dubla. E o jogo inteiro é você lutando pela Golden Path, a resistência, contra ele. Só que a Golden Path tem dois líderes, e os dois são péssimos: um quer transformar Kyrat numa teocracia, a outra quer transformar em narcoestado.
O final de quinze minutos
Aqui está o segredo mais famoso da franquia.
Logo no começo, Pagan te deixa sozinho na mesa de jantar e diz “já volto”. Se você ficar sentado por quinze minutos de relógio, ele volta de verdade, elogia sua paciência, te leva de helicóptero até Lakshmana, e o jogo acaba.
Lakshmana não é um templo. É uma criança. A meia-irmã do Ajay, filha do Pagan com a mãe dele.
Ou seja: a guerra civil inteira, as centenas de mortos, os dois líderes horríveis, tudo isso era evitável. Bastava esperar o homem voltar do banheiro. O Pagan nunca mentiu para o Ajay. A Golden Path mentiu.
Hurk, de novo, e Willis, de novo
Hurk aparece em Kyrat como personagem de cooperativo, e numa das missões menciona que um dos “irmãos de tatuagem” dele é o Jason. Sim, aquele Jason.
Willis Huntley também está lá, agora como antagonista menor: ele te usa para eliminar os tenentes da Yuma, e depois te entrega para a Guarda Real. Agente da CIA sendo agente da CIA.
Interlúdio: dez mil anos antes, um caipira
Far Cry Primal, 2016, se passa em Oros, 10.000 a.C. Sem armas, sem carros, sem vilão que fala inglês. Takkar, um caçador Wenja, tem que unir a tribo contra os Udam, canibais neandertais, e os Izila, adoradores do sol.

A vilã Batari é apresentada arrancando os testículos de um prisioneiro. O vilão Ull come gente para tentar curar uma doença genética que está exterminando o povo dele. Primal não é sutil.
Mas o detalhe que interessa aqui é outro. Andando pelo sul de Oros, você encontra Urki, um Wenja que tenta voar amarrando penas nos braços.
Urki tem o mesmo dublador do Hurk. O mesmo sotaque do sul dos Estados Unidos, falando Wenja. E as invenções dele são versões da Idade da Pedra do wingsuit, do colete à prova de balas e da seringa repelente de animais dos jogos anteriores.
A Ubisoft colocou o ancestral do Hurk dez mil anos no passado, com o mesmo cérebro e o mesmo sotaque, tentando inventar o que o descendente vai usar. Isso é a coisa mais Far Cry que existe, e foi feito num jogo que a maioria pulou.
Joseph Seed: o vilão que tinha razão
Hope County, Montana, 2018. Um culto chamado Projeto no Portão do Éden tomou o condado, e você é um delegado que vai prender o líder. Dá tudo errado na primeira cena.

Joseph Seed é o terceiro vilão da linhagem e o mais diferente. Vaas grita, Pagan zomba, Joseph sussurra. A Ubisoft contratou um especialista em cultos de verdade, Rick Alan Ross, como consultor, e o personagem lembra David Koresh na aparência e na voz.
Ele diz que o fim do mundo está chegando. Todo mundo acha que é papo de culto.
Os três finais, e nenhum é bom
O jogo tem três finais, e você escolhe entre “resistir” e “ir embora” no confronto final.
Ir embora: Joseph te perdoa, libera seus amigos, e no carro uma música do culto começa a tocar no rádio. A música que ativa o gatilho mental que ele plantou em você. A tela corta antes de você matar todo mundo.
Resistir: você derrota Joseph, o prende, e uma bomba nuclear explode no horizonte. Depois outra. Ele te arrasta para o bunker e diz que agora vocês vão reconstruir o Éden juntos.
Secreto: não prenda o Joseph na primeira cena. Fique parado. O jogo acaba em dez minutos com o culto no poder.
Vaas pergunta se você sabe o que é insanidade. Joseph prova. Ele passa o jogo inteiro avisando que o mundo vai acabar, você passa o jogo inteiro rindo, e no final ele estava certo. É o único vilão da franquia que vence.
A teoria de que ele mesmo apertou o botão
A comunidade não engoliu. A física da explosão não bate, não tem rastro de míssil, Joseph sabe o momento exato, derruba dois barris de Bliss quando a luta começa, e nada disso acontece no final “ir embora”.
A teoria é que a explosão foi orquestrada pelo próprio culto, e talvez limitada a Hope County. A Ubisoft nunca confirmou nem negou. O New Dawn tratou como fato.
O caipira sobrevive ao apocalipse
Hurk está em Hope County, como mercenário contratável, morando com o pai de direita e tentando ser progressista. Atrás da casa dele tem caixas com etiquetas: “coisas de Rook Island”, “coisas de Kyrat” e, sem explicação, “coisas de Oros”.
Willis também aparece, numa missão paralela: pede uma fita VHS do culto, promete ajudar, você entrega, e ele diz que está acima do seu nível de acesso. Calote da CIA.
New Dawn: o vilão vira monge
Dezessete anos depois da bomba, Hope County é cor-de-rosa. Literalmente: a flora mudou, os animais mutaram, e uma gangue de gêmeas chamadas Mickey e Lou controla tudo.

Joseph Seed sobreviveu. Fundou o Novo Éden. E está velho, cansado, e pedindo para morrer.
O delegado do jogo anterior também sobreviveu. Virou o Juiz, um cultista mudo de máscara que segue você como companheiro, e o jogo confirma que é a mesma pessoa, lavada cerebralmente pelo Joseph durante os anos no bunker.
No fim, o filho do Joseph, Ethan, trai o culto por ciúme, come a fruta proibida, vira monstro, e você mata. Joseph coloca o corpo do filho junto à árvore, ateia fogo, e pede que você acabe com ele também.
Dá para matar ou poupar. Nas duas, o homem que previu o fim do mundo termina sozinho, olhando a árvore queimar. É o final mais triste da franquia, num jogo que quase ninguém levou a sério.
E o Hurk? Sobreviveu no bunker com o primo, a mãe, o pai e o ex da mãe. Abriu uma destilaria. Teve um filho chamado Blade.
Antón Castillo: o vilão que jura que é herói
Yara, 2021. Uma ilha caribenha inspirada em Cuba, presa no tempo, governada por Antón Castillo, filho do ditador que foi executado em 1967.

Giancarlo Esposito interpreta, e fez questão de dizer em entrevista: “Não, não sou vilão. Esse cara ama o país dele.” O trailer em que ele solta uma gargalhada, diz “eu estava atuando” e volta ao olhar sério virou meme antes do jogo sair.
Antón tem leucemia terminal. Teve o filho Diego para continuar o projeto. Passa o jogo ensinando o menino a ser um leão. E o menino não quer.
O final que ninguém consegue impedir
Você chega ao palácio. Diego implora para você não matar o pai. Você promete proteger o menino. E Antón, sem hesitar, atira no filho e corta a própria garganta.
Não tem escolha. Não tem botão. Você assiste.
Vaas, Pagan e Joseph davam para poupar. Antón é o único que a Ubisoft não deixa você salvar, e o único que mata alguém que ama na sua frente. Depois de três vilões que você acaba entendendo, esse é o que faz questão de não ser entendido.
Todo mundo em Yara
E aqui a franquia fecha o círculo de propósito.
Tem revista com Pagan Min na capa espalhada pelo mapa, com entrevista sobre como ele revolucionou o cacau em Kyrat. Ou seja, ele sobreviveu ao Far Cry 4 e virou celebridade.
Tem um cachorro num contêiner, chamado Boom Boom, que é o Boomer do Far Cry 5. E o bilhete junto diz quem mandou ele para Yara: um americano maluco chamado Hurk Drubman Jr.
Tem o Juan Cortez, seu aliado, citando o Willis Huntley por rádio. E um empresário que, se você poupar, liga para o Willis oferecendo armas.
O cachorro atravessou um apocalipse nuclear porque o caipira do barco mandou. Isso não é easter egg. Isso é a franquia inteira num contêiner.
A voz depois dos créditos
Os créditos rolam. Na tela de título, você ouve o Juan conversando com um contrabandista sobre a morte do Diego.
A voz do contrabandista é do Michael Mando.
Os DLCs: dentro da cabeça de cada um
O passe de temporada do Far Cry 6 trouxe os três vilões anteriores de volta como protagonistas, cada um preso dentro da própria mente.

Vaas: Insanity. Uma Rook Islands de pesadelo onde Jason é o vilão e Citra a manipuladora. O final secreto confirma o que a cena pós-créditos sugeria: Vaas sobreviveu ao Far Cry 3, e o contrabandista do Juan é ele.
Pagan: Control. Começa com um jantar em família no topo de uma montanha, com Ajay, Ishwari e Lakshmana. A vida que ele queria e não teve. O DLC é sobre um homem que quebrou quando perderam a família dele.
Joseph: Collapse. O único que a Ubisoft coloca numa cronologia: entre o Far Cry 5 e o New Dawn. E no nível máximo de dificuldade tem uma mensagem de voz que, segundo quem terminou, redefine o personagem.
A roteirista Nikki Foy, que escreveu os três, resumiu: Vaas e Pagan foram quebrados pelas circunstâncias. Joseph é irredimível.
O que é fato e o que é teoria
Fato: Vaas não estava no plano original e foi reescrito em volta do Mando; Pagan foi escrito para ter mais tela; a Ubisoft contratou um especialista em cultos para o Joseph; o final secreto de 15 minutos existe; o Juiz é o delegado; Boomer foi enviado a Yara pelo Hurk; Urki tem o mesmo dublador do Hurk; o contrabandista é dublado pelo Mando; o DLC confirma que Vaas sobreviveu.
Teoria da comunidade: que Joseph orquestrou a explosão; que o Collapse é uma linha do tempo alternativa e o Far Cry 6 se passa noutra; que Pagan forneceu as armas nucleares.
Sem resposta: como Vaas sobreviveu a ser esfaqueado. O DLC diz que sobreviveu, não como.
A franquia num parágrafo
Quatro vilões que respondem um ao outro: o que grita, o que zomba, o que sussurra e o que jura que é herói. Três deles voltaram de dentro da própria cabeça. Um cachorro atravessou o fim do mundo. E um caipira de bandana viu tudo, entendeu nada, e sobreviveu a todos.
Se você quer começar por algum deles, aqui dá para ver quanto os jogos de Xbox custam fora da loja oficial.
E você, qual dos quatro pouparia?